Diálogo entre Fernanda e Camila
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Sabe aquele barulho das rodas de um carro andando por cima de britas ? Pois é isso que o Mercedes de Camila está fazendo, ao estacionar numa clínica veterinária, tal qual uma brasília, ou um fusca, ou qualquer outro tipo de carro faria.
Camila - Oi Fê ! Dessa vez eu vi de carro normal, tá vendo ?
Fernanda - Mais ou menos, Mercedes não é um carro normal, Camila... você quer dizer que veio sobre quatro rodas, e não de helicóptero, hahaha, mas por quê veio de carro ? Você já pousou por aqui e viu que cabe.
- Sim, mas esses pousos aqui são só em casos de emergência, porque depois o meu piloto toma uns processos por pousar em áreas sem sinalização adequada e blablabla. Melhor fazer tudo nos conformes. Aliás, era sobre isso que eu vim falar com você, minha querida doutora Breta !
- O que que é, eu tô visitando o nosso harss ... quero dizer, SEU haras mesmo quando...
- (interrompendo) Hahahaha, nosso ! Nosso haras, por favor, Fê, eu fico desconfortável quando você fala assim "seu haras", "seu carro", "seus cavalos"... muito mais do que uma excelente profissional, você é minha amiga, pô, deixa disso...
- Hahaha, tudo bem, mas então, eu tô visitando o haras mesmo quando você está viajando. Meu pagamento tá em dia também, pra mim, tá tudo direito, tá tudo "nos conformes"...
- Certo, vamos sentar lá na sua sala, tenho que te falar isso reservadamente...
As duas lindíssimas garotas, a veterinária mais bonita da cidade e sua amiga, a mulher mais bonita do Mundo, se levantam no refeitório da clínica e caminham até uma porta cuja placa diz "DRA. FERNANDA BRETA":
Fernanda - Esta é a minha sala, você já esteve aqui ?
Camila - Já sim, e não foi só uma vez não, Fê, tá esquecida ? Nossa, calma, tenho assunto sério pra falar com você, mas não precisa ficar assim tão nervosa... Não tem nada a ver com demissão. Fique mais tranquila, você tá passando a mão atrás da orelha demais, dá pra ver a ansiedade.
- Errr... sabe, eu nem tenho tanto medo assim de perder a vaga de veterinária lá no seu ... digo, no "nosso" haras porcausa do salário gordo que tenho lá. Ganho bem aqui na clínica também. Essa parte financeira não é o grande ponto. O que eu temo são duas coisas, mas tenho vergonha de falar de uma delas.
- Não fale só se não estiver à vontade, porque se depender de lealdade, de mim para você, nossa, eu até ficaria magoada se você não soubesse que existe.
- Então, é isso mesmo, eu não fico à vontade. O que eu posso te falar é que eu não gotaria de perder o contato com os animais lá do haras. Cavalos são a minha grande paixão, Camila !
- De maneira nenhuma ! Pode frequentar o haras como minha convidada de "passe livre", cê sabe que eu já deixei ordens lá para que celem qualquer peça caso você queira montar, e também...
- (interrompendo) Ufa, estou muita mais tranquila agora. - Fernanda relaxa os ombros e abre um sorriso iluminador. Retira o crachá, o guarda no bolso do jaleco, retira o jaleco e o pendura, dobrado, no encosto da cadeira. O crachá cai no chão.
Camila - Seu crachá caiu...
Fernanda - Você comprou a essa clínica e vai me demitir daqui, pra que eu fique tempo integral lá no haras ??? Não, não acredito...
- Hahahahahahahahaha ! Sua doida, seu crachá caiu mesmo, olhe aí atrás.
- Hahahaha ! Caramba, como uma frase simples pode ter diversos significados dependendo do que foi conversado antes, né ?
- Total. Mas enfim, é justamente isso que eu queria saber de você, do seu comprometimento aqui na clínica.
- Eu trabalho aqui há alguns anos já, papel passado, salário em dia, ótimos clientes, chefe meio sem noção mas gente boa, colegas mais velhos que me ensinam bastante coisa. O que quer saber exatamente ?
- Me diga se você abandonaria um paciente seu aqui para ir socorrer um outro lá no haras.
- Mas isso não daria certo, eu perderia muito tempo na estrada pra chegar lá...
- Indo de carro sim, mas e se eu mandasse o helicóptero vir te buscar ?
- Bem, isso é um assunto muito delicado. Como eu posso desconsiderar um paciente em favorecimento de outro ? Isso é anti-ético demais, minha amiga...
- Que nada, imagine que um está em caso de vida ou morte e o outro veio só pra exames de rotina, pra uma limpeza auricular, ou sei lá. É óbvio que existe uma hierarquia nessas emergências...
- Bem...
- Pois é...
- Mas vai ficar feio pra mim, já pensou ? Atendendo um cliente, o celular tocando e eu saindo correndo no meio da consulta, pô... peraí, não é bem assim...
- Que é isso, Fê, vai deixar de salvar uma vida só porque fica feio largar o outro bichinho, que tá praticamente sem problema algum ? Pelo menos sem correr risco de vida ???
- Peraí, não foi isso que eu disse... como é que se pode avaliar o estado dos dois animais pra poder fazer a escolha certa ?
- Ora vamos, você me irrita às vezes !!!
- O que foi ?
- Ah Fernanda, aqui você trata de cães e gatos, fazendo exames, prescrevendo receitas e remédios, é rotina, não é todo dia que aparecem emergências, né ?
- Isso é o que você pensa !!!
- Ah é ??? Nossa...
- Ôôô...
- Tá, mas você iria ao haras se um dos cavalos estivesse passando muito mal, prestes a morrer ?
- Depende da situação por aqui, no momento. Mas por que você quer tanto saber pra que animais eu dou prioridade ? Putz, a vida deles todos têm igual valor, só você que não vê isso. Eu largo o que estiver fazendo para empedir a morte de um, a não ser que estivesse tratando de outro.
- Se você me disser que responderia a um eventual chamado meu, pra fazer um procedimento de mergência, tendo que sair daqui correndo, eu ficaria bastante reconfortada. Eu preciso de um veterinário exclusivo lá pro haras ! É isso.
- Hahaha, ahhh, você tá meio sem noção, Camila... sabia que, para a quantidade de peças que você tem lá, pela qualidade do lugar, pelo treinamentos dos peões da fazendo, eu poderia visitar o haras uma vez por mês e isso ainda seria uma freqüência polpuda ! E eu tô lá toda semana !!!
- Hmmm, é verdade... mas e no caso de uma emergência ? Tô me referindo a uma situação imprevista.
- Olhe, coisas imprevistas, como o próprio nome diz, não são previstas, não posso dizer o que faria e o que não faria. O imprevisto é imprevisto, hahaha, que estranho que é essa frase...
- Cê me tranquilizou um pouco, sabe, eu andei muito preocupada desde aquele lance com o Monty. Esses cavalos são a minha vida !!!
- Ainda bem que você tem grana pra comprar, né ? Eu também adoro cavalos, pena que eu não tenho grana pra tanto...
- Ahhh, Fernanda, vai dizer que se você quisesse, não poderia comprar um?
- Um "pé duro", né ? Hahahaha !!!
- Hahahahaha !
- Eu poderia comprar um cavalo legalzinho, tudo bem, isso acabaria com meu orçamento de uns 3 meses, mas pra comprar um fodasso, tipo o Monty, assim top de linha, isso nunca, jamais !
- Tá certo, quando é seu próximo aniversário ???
- Não... eu não acredito...
- Vamos resolver isso ! É 23 de Abril, que eu sei, né ? Nem dava pra fazer surpresa mesmo porque é você quem vai fazer os exames na hora da compra. E também é sempre bom se você for escolher...
- Ai meu Deus...
- Eu te ligo, pra gente marcar isso, tá bem ?
- Tá bem, mas e depois ? Quanto é o aluguel do haras, pois ele vai ficar lá, né ?
- Não, ele vai ficar no seu apartemaneto !
- Um cavalo, você vai me dar um cavalo de presente, eu ouvi direito ? E você acha que tenho que guardá-lo lá em casa ?
- É sim.
- Hahahahahaha ! Camila maluca !
- Hahahaha ! Claro que ele vai ficar lá no haras, ô minha querida doutora ! O aluguel, pra você, vai custar 1 real.
- Batatinha, 1 real eu posso pagar. 1 real por ano, certo ?
- Hahahaha, certo, por ano, hahaha !!!
- Hahahahahaha !
FIM