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Thursday, March 20, 2008

-- Gervizio e os Lobos (parte 1) --


Gervízio trabalhava numa usina nuclear tão radioativa que as paredes brilhavam, mas ele tinha o peito cabeludo e cuspia no chão, era raçudo, dispensava o uso de roupas de proteção. Ele conquistou sua esposa não só porcausa dos seus olhos claros, mas também porcausa dos seus olhos luminosos. O bocejo dele tinha aquele barulho de flash de câmera fotográfica recarregando-se, tssuuuiiiimmm. Ele nem precisava acender os faróis do carro para digir a noite, na cidade, e jamais comprava gasolina; o carro funcionava a base de seu suor atômico.

Mas sua sorte mudou quando, certa vez, a diretoria da usina marcou uma viagem de férias para um resort no último feriadão, muitas centenas de quilômetros distante. Para chegar lá, algumas pessoas foram de helicóptero, outras de jatinho. Mas Gervízio era raçudo, ele foi de carro, a noite, com os faróis apagados. Infelizmente, na estrada, a luminosidade não é a mesma da cidade, e até com seus olhos de thundercant Gervízio não conseguia ver porra nenhuma e acabou batendo violentamente contra alguma coisa que ninguém podia identificar, de tão escura que estava aquela noite. Gervízio foi atirado pra fora do carro com tanta violência que perdeu a consciência e só acordou no dia seguinte, deitado sobre um descampado irreconhecível. Ele andou por horas sem achar a estrada. Andou por dias sem achar civilização. Então, após a sede, apareceu a fome, e ele procurou o que comer.

Apertou os olhos e viu no horizonte alguns lobos devorando a carcaça de uma zebra senegaleza, a mais saborosa. Ele foi correndo até lá, mas antes de chegar no meio do caminho já tinha percebido que a zebra estava vazia, os canídeos a haviam comido totamente, frente e verso. "Lobos safados," e logo prosseguiu: "cara, eles devem estar cansados após perseguirem e matarem esta zebra, vai ser fácil pegar um destes...". Gervízio se aproximou sorrateiramente e pegou 3 lobos de uma vez, já que ele era raçudo. Só conseguiu matar um, a dentadas, apesar de ter ferido gravemente os outros dois. Comeu metade de sua presa na mesma hora, crua, e levou a outra metade sobre os ombros. Na floresta, o orvalho da alvorada, manhã após manhã, dava energia a Gervízio mais do que uma usina nuclear era capaz de fazer.

Meses depois, finalmente, ele encontrou a estrada que procurava e pôde ir ao encontro dos colegas de trabalho, no distante resort. Mas ele chegou atrasado e quase foi despedido por isso. Só manteve o emprego porque a usina apreciava a economia do traje de proteção que ele dispensava. FIM.